Belo Horizonte , Quinta-feira, 9 de Setembro de 2010
 
 
 
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Entrevista para a REVISTA HOTÉIS - no. 74 - fev/2009 concedida pela presidente da ABIH MG Silvania Capanema. Leia mais... (27/2/2009)

ENTREVISTA

Silvania Capanema
Presidente da ABIH MG
Hoteleira, diretora do Liberty Palace Hotel em Belo Horizonte

1) Você tem realizado de forma discreta um grande trabalho frente à hotelaria de Minas Gerais e muitas pessoas do Brasil ainda não conhecem estas conquistas. Este estilo mineiro de trabalhar em silêncio é sua marca pessoal?

A mineiridade consiste em ouvir mais que falar, agir antes de alardear. Para quem chega por último, pois vim do setor de construção civil e estou na hotelaria há apenas 5 anos, é prudente chegar com discrição, questionando e aprendendo antes de mostrar para o que veio.

2) Você criou e implantou um programa de software chamado "Cesta Competitiva" que está revolucionando a hotelaria mineira e servindo de referência para outros estados. Como surgiu a idéia de se criar este programa e quais os resultados obtidos?

Surgiu da necessidade de melhorar o rendimento financeiro dos hotéis de Belo Horizonte em plena curva descendente. Primeiro cuidamos de aumentar a taxa de ocupação, trabalhando, junto com a Setur, a Belotur e o BHC&VB, na divulgação da cidade e na captação de eventos. Em seguida introduzimos o conceito de RevPar, ou seja, saber equilibrar taxa de ocupação x diária média de modo a obter o melhor faturamento por apartamento disponível. Os hotéis de rede fazem uma apuração destes dados, porém de maneira arcaica, telefonando a hotel por hotel e colocando os dados numa planilha. Convidei dois jovens para me auxiliar a montar o programa de software e o implantamos na hotelaria de BH, cuja união e confiança na ABIH MG foi fundamental. O resultado foi que aumentamos o faturamento dos hotéis de BH em 22,5% no ano de 2008, considerando apenas hospedagem.

3) Você está realizando o TurHotel por várias cidades do interior mineiro. Em que consiste estas ações e quais são as expectativas para os próximos anos?

O Turhotel é um evento itinerante que leva conhecimento e oportunidade de negócios à hotelaria do interior. Participam as instituições como apoiadoras e os parceiros comerciais como patrocinadores. Acontece em ciclos de dois anos e visita, a cada ano, quatro polos hoteleiros no interior, finalizando com um evento maior em Belo Horizonte. Foi implantado no início de 2008, termina este ciclo no final de 2009 e daí inicia, em 2010, o 2º. ciclo, que será de consolidação. A partir de 2012, com vinte eventos realizados terá maturidade para seguir seu caminho, devendo crescer em número de participantes, tanto hoteleiros como parceiros comerciais.

4) Como é que está posicionada a hotelaria mineira hoje? Quantos estabelecimentos possui? O número é ideal para atender as necessidades?

Pelo cadastramento realizado pela ABIHMG temos hoje, aproximadamente, 1600 hotéis, 700 pousadas, 140 hotéis fazenda , 60 apart-hotéis e 40 albergues, totalizando entre 2500 e 2600 estabelecimentos hoteleiros no estado.
Hotéis são construídos, pela lógica, conforme a demanda do mercado. O que não pode ocorrer é a queda desta demanda. À medida do crescimento do número de turistas que visita o estado, certamente crescerá a oferta de leitos, assim, o número de estabelecimentos será sempre o ideal. Importante não é a quantidade de hotéis e sim a qualidade da estrutura física e do atendimento, nossa preocupação é com a qualificação.

5) A hotelaria do estado de Minas Gerais, principalmente da capital, vem registrando aumentos consecutivos ano após ano na taxa média de ocupação, assim como a recuperação da diária média. Quais os fatores que influenciaram esta performance?

Além do crescimento da economia do estado, foram decisivos a transferência dos vôos nacionais para o Aeroporto Internacional Tancredo Neves e a construção da Linha Verde, que hoje liga o aeroporto ao centro em 30 minutos. A entrega da primeira parte do Expominas possibilitou a realização de grandes feiras e congressos.

6) Alguns especialistas criticam o fato de Belo Horizonte, pela importância que detém no cenário nacional, ainda não possuir um hotel de luxo de uma rede internacional. Como você analisa este contexto?

Temos pelo menos quatro hotéis de luxo, dois independentes e dois de redes (Accor e Caesar). Quanto a hotéis super-luxo não há porque tê-los. BH é uma cidade de turismo de negócios, as empresas que ocupam quase a totalidade da estrutura hoteleira, para seminários e treinamentos, não pagam tarifa corporativa acima de R$260,00.

7) A siderurgia deverá ser um dos setores mais afetados pela crise mundial e este segmento é uma grande força do PIB mineiro. Isto pode afetar a hotelaria? Qual é a expectativa de vocês para os próximos anos?

Tivemos em janeiro uma queda de 22% da ocupação em relação ao mesmo mês em 2008 e a situação tende a piorar, já que o primeiro custo que é cortado nas empresas é o de treinamento. Para os próximos anos ainda é cedo para previsões, mas espero que não retornemos aos índices anteriores à 2006.

8) Havia uma discordância contratual entre a hotelaria mineira e a Match, empresa contratada pela Fifa responsável pela hospedagem na Copa do Mundo de 2014, para Belo Horizonte ser homologada como uma das prováveis sedes. Isto já foi resolvido e como a hotelaria mineira está preparada para receber o evento?

O que ocorreu é que, por predominarem na cidade os apart-hotéis de rede, como Accor, Promenade, Bristol e Quality, dentre outras, estes contratos estão sendo fechados a nível nacional, em outros estados, e os hotéis independentes querem ter o mesmo tipo de contrato dos hotéis de rede. Como acreditamos que BH será escolhida como uma das cidades sede, estamos cuidando, junto com a Setur, da organização e da qualificação não só da hotelaria mas de toda a rede do turismo.

9) Se comparada a outros estados do Nordeste brasileiro ou mesmo São Paulo, a hotelaria mineira não atraiu muitos investimentos na construção de novos hotéis nos últimos anos. Até que ponto isto beneficiou a hotelaria instalada ou prejudicou o turismo interno. Como você analisa esta situação?

A cidade não comportou novos investimentos porque já estava com excesso de oferta.
Vamos esclarecer o que aconteceu: em 1996 foi aprovada uma nova lei municipal que baixou o coeficiente de aproveitamento do solo, o que viria a reduzir os ganhos dos investidores. Como houve um prazo para a aprovação de novos projetos na lei antiga, as construtoras, querendo aproveitar-se desta situação transitória, saíram comprando todos os lotes disponíveis na cidade. Sem capital para bancar sozinhas o custo de tantas construções, precisavam de sócios e prometendo altos rendimentos aos pequenos investidores, venderam e construíram um número de apart-hotéis três vezes superior à demanda. Vieram as redes para administrar estes condomínios, que, com tamanha concorrência, baixaram muitos as tarifas já estabelecidas para conseguir entrar no mercado. Como conseqüência, entre 2002 e 2005 tivemos anos negros na hotelaria belorizontina; com baixos rendimentos, muitos hotéis foram fechados, outros tantos destinaram-se a flats e outros tiveram sua construção interrompida. Com a regularização entre oferta e demanda a partir de 2007, estes imóveis estão voltando ao mercado com destinação hoteleira, estima-se que cerca de 2000 unidades habitacionais devem ser reabertas nos próximos dois anos, num processo de "descongelamento" equilibrado entre oferta e demanda.

10) A Secretaria de Estado de Turismo de Minas Gerais começa a fazer um mapeamento em dez municípios mineiros para que os mesmos se tornem indutores do desenvolvimento turístico regional. Como você está vendo esta iniciativa. Minas Gerais agora será a "bola da vez" para atrair os grandes investimentos estrangeiros?

A iniciativa é fundamental para um planejamento do turismo no estado. Minas, com seu imenso potencial natural e cultural tem tudo para ser um grande destino turístico internacional, mas temos que cuidar da qualificação e da divulgação para alcançarmos o patamar que o estado merece.

11) Mesmo com a grande vocação para negócios, Belo Horizonte tem poucas opções de centro de eventos, ou mesmo de infra-estrutura necessária para receber mais eventos. Este é um dos gargalos que impede o crescimento maior da hotelaria na cidade? Como estão as ações dos órgãos públicos para mudar este cenário?

Este é o gargalo principal. Em 2008 finalmente conseguimos o equilíbrio entre hotéis, segmento alimentar e espaços para eventos, daí a excelente performance do ano. Este equilíbrio não pode ser quebrado, a hotelaria crescerá naturalmente à medida que se inaugurarem novos espaços, como o novo Centro de Convenções municipal, previsto pra final de 2010, e a duplicação do Expominas, com verba do governo estadual, ainda sem data.

12) No seu ponto de vista, quais as principais vantagens que Belo Horizonte possui para sediar eventos?

A cidade tem uma boa rede hoteleira, com 151 hotéis, 8898 aptos e 19034 leitos no município de Belo Horizonte, sendo que contamos com mais 102 hotéis e pousadas, 2127 aptos e 4229 leitos se considerarmos a região metropolitana. A hotelaria é nova e bem qualificada, a grande maioria dos estabelecimentos tem menos de 10 anos; programas como o Capacitur, parceria da Belotur com a ABIH MG, está treinando 7000 pessoas, que lidam diretamente com o turista, na arte de bem-receber.
A preferência por Belo Horizonte se deve ao fato da cidade ser uma das capitais mais seguras do país e bem servida no quesito transporte: o transito ainda flui com rapidez - por exemplo, do centro, da Savassi ou do bairro de Lourdes, onde se concentram os hotéis, até o Expominas, não se leva mais que 30 minutos nas horas de pico. O serviço de táxi é excelente, há ligação direta de metrô desde o centro ( estação da Rodoviária) até dentro do Expominas, através de um "finger", proporcionando rapidez e total segurança.


13) Como você avalia a qualificação da mão-de-obra da hotelaria mineira e como a ABIH/MG se interage com os órgãos públicos para capacitação?

Este será o projeto ao qual me dedicarei nos próximos anos. Acabo de encaminhar à ABIH Nacional e à Setur - Secretaria de Turismo de Estado - um projeto de qualificação para a hotelaria brasileira que, se cumprido, colocará nossos hotéis dentro do padrão internacional dos grandes destinos turísticos até 2014. Trata-se um projeto ousado, amplo e de implantação à médio prazo, mas perfeitamente factível. O projeto piloto será feito com 60 hotéis e pousadas, de BH e do interior, provavelmente com verba do projeto da Rede de Turismo de Eventos e Negócios / BID FUMIN. Já temos o grupo selecionado e pré-categorizado, que participará do "Concurso dos Melhores Hotéis e Pousadas de Minas" a ser realizado este ano. Com os resultados apurados neste projeto piloto, iremos municiar o Ministério de Turismo/ Embratur, com dados fundamentais para esta qualificação, que engloba uma nova matriz de classificação da hotelaria brasileira e os princípios de qualidade internacionalmente aceitos da ISO 9001, porém adequados à hotelaria. Hoje o Brasil é a 7ª. potência econômica do mundo, mas o 59º destino turístico. Isto deve mudar, temos que preparar o país para o "boom" turístico que deverá acontecer a partir da Copa 2014. Temos muito trabalho pela frente!






 


 
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